Eu e Armin pegamos o táxi para ir ao evento. No fim das contas ele ficou em terceiro lugar e ganhou 3 mil euros. Estávamos contentes. Armando estava nas nuvens mesmo não tendo ficado em primeiro lugar.
─ Você tem noção do que aconteceu hoje? Eu ganhei um concurso de rap internacional! – ele está sorrindo de orelha a orelha enquanto fumamos um beck, sentados em cima de um trem abandonado de uma das estações fantasmas de Paris. Daqui dá para ver a Torre Eiffel.
─ Eu só consigo pensar no quanto você é bom nisso. – Sorrio. ─ Eu amei a sua letra. E eu… eu escrevo coisas também. Mas desde que eu cheguei do Brasil parei, é como se ninguém ligasse.
─ Você canta?
─ Não, papi…
─ Canta sim que eu sei! Canta um pouco para mim, princesa?
Fico muito vermelha.
─ Em português. – Ele especifica.
Dou alguns risinhos.
─ Vamos, baby… – insiste Armando.
Sorrio, muito vermelha. Fumo mais e deixo alguns segundos passarem.
─ Qualquer coisa?
─ Sim, alguma música que você goste.
— Não me deixe só… Que eu tenho medo do escuro. Eu tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha voz. (…) – Canto algumas estrofes de “Não me deixe só” da Vanessa da Mata enquanto ele me escuta atento e seus olhos brilham um pouco. Paro no meio, vermelha que nem um tomate.
─ Que relaxante… – ele diz, todo sincero.
Apenas dou um risinho tímido, e fumo de novo, sem olhá-lo.
─ Garota de Ipanema, você.
Rio outra vez, dessa vez um pouco mais alto.
─ Sabe por que viemos aqui? – ele pergunta, ladeando um sorriso custoso.
─ Por quê? – pergunto.
─ Olha para frente, para os trens, para os graffitis. – Ele abre um sorrisinho, com os bordes dos seus olhos vermelhos.
Olho para onde ele diz, vendo várias pinturas nos trens abandonados. Não paramos de dar risinhos à toa. O alaranjado do sol está sumindo entre várias nuvens acinzentadas.
─ Tá vendo aquele, que diz “Arma”? – ele pergunta, enquanto passa a sua mochila para frente, entre suas pernas, e começa a abrir o zíper.
Localizo uma assinatura pintada de branco, preto e cinza, que diz “Arma”, e tem o desenho de uma pistola em cima. Da pistola sai uma nuvem e várias pílulas coloridas.
─ “Arma”, hm? – sorrio, pícara. ─ Credo, você é todo delinquente, Papai.
Armando dá um risinho gostoso.
─ Eu trouxe você para desenhar, neném. Você quer? Praticamos?! – ele ladeia um sorriso, e abre a mochila, me mostrando várias latas de spray. ─ Eu tenho que acabar essa peça, sempre quis. E como estamos aqui hoje… Ainda falta um pouco para a gente ir para a Sound System. Acho que podíamos fazer umas artes. – Sorrio com seu duplo e triplo sentido. ─ Mas um vigia e o outro pinta. Se a polícia a múlta é de quinhentos mil euros. Entendeu? Ou seja… A vida inteira pagando essa bosta.
─ Tá louco? Então não!
─ Deixa só eu então. Que eu to louco.
─ Não, Daddy.
─ Vigia. – ele pula do trem para a via e começa a tacar tinta.
Aflita, começo a vigiar, olhando de um lado pro outro. Pois meu louco já tinha começado a tirar a primeira lata e a tacar tinta no trem.
─ Me vigia aí, Lynn malandra.
─ To toda nervosa, por ti. Você me paga seu puto. – digo aflita.
Ele apenas ri.
─ Se alguém aparecer vamos dar no pé.
Assinto, rindo baixinho. Sentindo adrenalina.
Desço do trem e fico revezando entre vigiar e observar como ele completa a pintura. Ele é bem habilidoso e talentoso. Move o seu braço forte com traços limpos e pouco a pouco alterna a lata de spray branca e deixava tudo tridimensional.
Então ele pinta, programa, rima, e ainda tem uma ótima forma física.
Sou um lixo perto, mas ok.
─ Eu acabei. – ele diz após uns vinte minutos. ─ Você quer pintar? – ele me olha sorrindo.
─ Vamos lá. – Vou me aproximando, animada, e pego uma das latas. – O que uma principiante inepta poderia pintar?
Armin ri da minha sinceridade.
─ Um coração? – ele caçoa, sorrindo amplamente. ─ Brincadeira. Pinte algo que tenha algum significado para você.
─ Um teclado? – pergunto, tímida.
─ Perfeito, não? Afinal, só temos tinta branca, preta e cinza.
Que coincidência.
Acabo dando um risinho contente.
Fiquei pintando enquanto Armando vigiava o ambiente, e parava de tempo em tempo para me ajudar. Aprendi a desenhar mais com ele do que em todo o mês que levo indo na Escola. Apesar de que ficava tímida em muitos momentos onde ele me corrigia, Armando fazia de um jeito paciente, calmo, paterno, dócil, que não fazia com que eu me sentisse atacada ou inferior em nenhum momento. Senão que fazia com que eu o amasse mais.
Eu sentia vergonha pela tensão sexual, por admirá-lo, não porque ele estava sendo duro ou crítico comigo. Aliás, ninguém nunca me ensinou algo de uma forma tão paciente. Bom, exceto a minha vó, quando me ensinou a ler e a escrever.
Será que ficar com ela teria sido o melhor para mim? Não dá para saber. Eu não teria conhecido o Armin. Mhuhm. Fico toda rosinha.
Suponho que não existe preto ou branco na hora de se referir às pessoas, senão tons de cinza.
Bondade e maldade misturadas, sempre.
Olho a lata dessa cor na minha mão.
─ Vamos embora? Eu estou tendo um mal pressentimento.
─ Mal pressentimento? – Armando sussurra.
─ Sim… – dou um forte suspiro, sentindo a minha boca seca pelas substâncias. Talvez sejam paranóias, mas não estou me sentindo bem.
─ Ok, baby. Vamos vazar. – Armando tira fotos dos nossos trabalhos rapidamente, para subir no Instagram.
Fomos embora da estação abandonada caminhando depressa, e logo correndo por paranoia no terceiro e quarto quarteirão. De repente escutamos as sirenes da polícia nacional francesa, bem altas.
─ Uau. Bruxa, em?! – Armando arregala os olhos surpreendido.
Coro e rio baixinho.
Ele me abraça, rindo.
─ Baby tem um talento oculto! – exclama Armando, me fazendo sorrir. Rio com vergonha.
─ Haha! Olha… Falta muito pra chegarmos na festa? Quero dançar.
─ Temos que caminhar mais uns vinte minutos reto, e logo cinco para a esquerda. Direção centro.
─ Beleza. – Assinto.
Dois festeiros caçando show, movimento, aventura e batidas de som intensas. Estou me sentindo feliz para caralho, então aperto o braço dele e sorrio quando ele me olha. O moreno me empurra de leve, corando.
Aqueles casais que além de amor um pelo outro também compartem amor pela música, e pela arte, entenderão que entre mim e ele há além de tesão uma inquestionável amizade. Uma união mágica de sonhos. Explicando de um jeito fácil para quem for mais prático, é como se o cara que você gosta fizesse a mesma faculdade que você.
Chegamos num espaço aberto onde um show de Dubstep estava acontecendo. Meu corpo foi contagiado por felicidade. Dançando e, através da música, eu também consigo me esquecer de tudo. Além do sexo, é uma das minhas vias de escape. Eu e Armando… Já estávamos bêbados de antemão, pois temos cérebro. Os coquetéis dentro sempre são bem mais caros.
─ Passem. – diz o segurança com aspecto de “wannabe police”.
Eu e Armando entramos. Há muita gente se divertindo e dançando enquanto o DJ se move com as batidas da sua própria música. Há sabão pelo chão, e um monte de bolhas que são sopradas desde o centro do palco, deixando as pessoas molhadas, pouco a pouco.
Armin se aproxima de mim e acende as minhas orelhinhas, rindo. Compramos ela de um vendedor ambulante africano que estava por ali. Elas começam a brilhar alternando cores de neon.
─ Daddy, me pega no colinho? – peço mimosa, olhando para ele e franzindo as sobrancelhas, com um grande sorriso.
─ Mm… Mhuhm. – Ele ri de um jeito fofo e me subo em seu colo, pegando nos cabelos da sua nuca com as duas mãos enquanto sorrimos com a boca e com os olhos. Damos alguns risinhos antes de eu voltar para o chão.
Começo a caminhar com Armando entre as pessoas e como todos estão dançando é bem difícil abrir passo.
─ Cadê sua bolsa, bebê? – Armando se gira com preocupação.
─ Tá comigo, Daddy. – Falo perto do ouvido dele, mostrando-lhe minha bolsa de um jeito delicado e meigo.
─ Cuidado com ela, ok? Aqui parece que todo mundo é maravilhoso, honesto e de boa. Mas podem roubar suas coisas. Me dá ela se preferir, eu coloco ela no corpo.
─ Tá bom, Papai. – Sorrio.
Ele pisca um olho e pega a minha mão, enquanto seguimos andando. Uns passos a mais e acabamos encontrando-nos com André e Jorge. Os dois estão dando tudo na multidão e começo a gargalhar. O André é ligado no 220V.
— Lynn! – André se gira, me notando, enquanto Jorge e Armin se cumprimentam. A música aqui na frente é alta demais, não dá para ouvir nada do que ninguém está dizendo. Sorrio, ficando igualmente feliz em vê-lo tão contente, logo nos abraçamos. Seu abraço é quentinho e aconchegante, de amigo.
No entanto, as pupilas dele estão dilatadas, os olhos maiores que de costume… Jorge também parece bastante afetado por álcool e outras drogas.
— Vamos nos acabar hoje? – grito em seu ouvido.
André gargalha e começamos a saltar no ritmo da música, contagiados com a alegria um do outro e tão doidos que parecia que estávamos num pula-pula rítmico.
Ficamos assim por algumas horas, perdendo a noção do tempo. Cada canção era melhor do que a outra, estamos suando.
Bebo do copo de bebida do André, me refrescando com uma mistura qualquer de perdição. Logo sinto o efeito subindo no meu corpo, me deixando mais bêbada. Ou mais… sei lá.
─ Cadê seu irmão, André? – pergunto perto da orelha dele. Não encontro o Armin com os olhos.
─ Ele deve estar por aí conversando. – André segura o meu braço, e responde no meu ouvido. ─ Deve estar fazendo amizade contato com pessoas que ele viu ou viram ele no concurso. Quer procurá-lo?
─ Mm… – Assinto. Eu e André nos afastamos das caixas de som, que são potentes e ensurdecedoras; coisa característica de Sound Systems. Ficamos numa cerca bem à esquerda da saída e acendemos um cigarro cada um.
─ Ai… por que ele tem que ser tão popular? – suspiro, mas logo gargalho. Nem eu acredito em mim mesma quando digo esse tipo de coisa.
─ Ah, Lynn… Ele é assim, fluído. Uma hora está, outra hora não está… É impulsivo, desconcentrado, sensível… distraído. – o jovem de cabelos azuis suspira. ─ Por quê? Já estão apaixonados? – ele traga fumaça, sopra e dá um risinho sarcástico pequeno.
─ O que você quer ouvir como resposta? – abaixo um pouco a cabeça e solto um risinho fraco, de sabichona.
─ Para mim tanto faz, sinceramente. Só não quero que nenhum dos dois se machuque. Enfim. Ah, amiga. Você sabe. Eu sou é da fofoca. Quero saber se vocês se gostam ou só estão transando. – Ele abre um sorrisão, muito idêntico ao do Armando. Os dois ficam mais parecidos quando sorriem, sem dúvidas.
Dou uma gargalhada gostosa.
Mas logo penso na pergunta, e ela envolve refletir. Coisa que não estou muito a fim.
─ Sei lá. Só estamos começando… – Respondo.
─ Então se é assim, não se apegue nele muito rápido. Porque o Armin um dia quer uma coisa e no outro quer outra.
─ Tá dizendo que ele vai se cansar de mim?
─ Não. To dizendo para você só o levar a sério quando ele te levar a sério. E levar a sério é relativo. Quero dizer, cada casal tem suas próprias condições.
Fico pensando.
Olho o rosto do meu amigo e vejo onde o seu olhar perdido e nostálgico se encontra. Jorge, seu namorado, está se beijando com outro cara mais à distância, num fogo de ter que chamar os bombeiros.
─ Você não vai fazer nada? – cruzo meus braços, sacando tudo.
Ele para de olhar e fita meu rosto, mudando de expressão para uma mais descontraída de um jeito forçado.
─ Nós temos uma relação aberta. – Ele afirma convicto.
─ Ah… – comento, arrastando a voz, de um jeito irônico.
Meu amigo ergue uma sobrancelha e bufa, cruzando os braços.
─ Você está sofrendo? – pergunto, analítica.
─ Eu não sei, amiga. Pode ser que sim? Mas não deveria. Hoje em dia todo mundo é tão moderno, não? Fala-se de amor incondicional, de deixar o outro livre para ser o que quiser e estar com quem quiser. Hoje em dia virou até hipocrisia se ofender porque seu namorado sente tesão por outras pessoas. E sabe por quê? Porque a verdade é que mesmo em casal, todos sentimos tesão por outras pessoas. E é hipócrita o que diz que não. Até a mulher mais santa e fiel tem fantasias eróticas com outros homens. Então, como assimilar algo assim? Como lidar com sentimentos que são irracionais?
─ Estou de acordo. Mas também não sei como lidar. – Sorrio, fumando mais um pouco. Sigo rindo baixinho dos meus próprios devaneios. ─ Deveríamos nos divertir como todos os demais.
Passa por minha cabeça perguntar se ele acha que o Armin está por aí com alguma garota. Mas finalmente não o faço.
─ E como vamos nos divertir? Dando um beijão de língua eu e você também?
O olho, enquanto rio baixinho, corando.
─ Por que não? – sorrio.
─ Hm… Hahaha. – Meu amigo ri de um jeito gostoso e para na minha frente. Ele está sem a camiseta. O suor brilha na sua pele, que é branca e uniforme. Mas não de um jeito cegante, senão como se fosse uma capa de óleo corporal.
Lhe dou um selinho apertado, segurando o seu ombro sem pensar. Sinto a maciez dos seus lábios. O rosto dele é feminino, suas fações delicadas, mas a forma de seu corpo claramente indica que é um homem bem atrativo.
─ Só isso? – ele reclama, pegando minha cintura e ladeando um sorriso sexy e divertido.
Gargalho um pouco.
─ Você gosta de meninas também, é? – pergunto, me divertindo.
─ Que isso. – Ele solta um risinho bem caçoado. ─ Eu sou 100% gay. – Ele lambe seu lábio inferior, sorrindo. Com André meu ego não é frágil. Eu não estou apaixonada por ele, nem ele por mim.
─ Então se beijarmos de língua agora, é tipo um beijo lésbico?
Meu amigo assente, rindo, adorando a ideia.
─ Então vem cá, gostoso. Já que você é gay, não vou me conter. – Pisco um olho e abro um sorriso sedutor e escancarado.
André morde o lábio inferior.
É desejo o que estou vendo na cara dele? Seus olhos se acalmaram, ficando brilhantes e pidões como os de um cachorrinho. Ele está me olhando com cara de tesão.
Aproximo o meu corpo do dele e aliso seu antebraço definido suavemente, sentindo suas veias e mordendo meu lábio inferior enquanto nossos corpos suados sentem o contato um do outro.
─ Calma aí. Estou falando sério, nunca beijei uma menina. – Ele fica corado, e seu olhar implora por leveza e cumplicidade.
─ E não é que é gay mesmo. – Dou um risinho divertido. ─ Relaxa, ok. Dizem por aí que boca é tudo a mesma coisa.
─ Hum… – ele toca o meu rosto, tirando uma mecha molhada dele, a penteando para trás. Faz o mesmo do outro lado, e me deixa bem penteadinha, linda e fofa. Que nem um amigo gay mesmo, preocupado pelo meu bom aspecto. Sorrio com ternura. ─ Deveríamos checar? – sua voz fica arrastada, perto da minha boca. Ele está se inclinando para ficarmos com os rostos um sobre o outro, e agarrando o meu com as duas mãos de um jeito delicado e carinhoso.
─ Agora. – Respondo sorrindo. Os dois vamos fechando os olhos.
─ Você é muito linda e delicada… A experiência nova está me dando tesão. – Comenta André, fazendo-me lamber o lábio inferior.
─ Eu sou bonita? Pegável?
─ Sem dúvidas. – Ele sussurra.
Seguro ao redor do seu pescoço e arranho sua nuca de leve, sentindo meus seios pregando em seu peito.
─ Então prove algo novo, Andy. – Sussurro e nossas línguas se encostam uma na outra, se enlaçando.
Sinto suas mãos descendo do meu rosto pelos meus ombros, tudo de um jeito contido, lento, temerário. Elas vão parar na minha cintura fina. Ele a toca hesitante e aos poucos com mais confiança, finalmente a segurando.
Sinto André a apertar. Fico surpreendida. Ele me puxa para ele mais fortemente e o nosso beijo fica intenso e selvagem. Estamos em branco, os dois, certamente. Ou talvez seja eu a que esteja em branco. E talvez ele esteja aqui e agora comigo, vivendo isso. Vou me deixar levar também. Sem julgamentos.
O correspondo de um jeito intenso e apaixonado. Nossas línguas se melam de uma forma tão deliciosa que gemo contra a boca dele e me amoleço nas suas mãos.
Nos separamos um pouco para que nossas línguas brinquem de um jeito promíscuo, e aproveitando a distância, sussurro contra a boca dele:
─ O que foi isso? – pergunto sarcástica e maliciosa.
─ Mm… Não sei. – Ele pisca um olho com graça. ─ Mas não estou arrependido. – Ele ri pela garganta, sem abrir os lábios.
Mordo meu lábio inferior com força, sorrindo.
─ Nem eu. – Digo sensualmente.
Lentamente, André abre um sorriso ladeado, que cresce aos poucos em seu rosto, enquanto volta a se mover com a música, levemente.
─ Eu sou gay, certo… Gay passivo. – Ele sorri, explicando.
─ Você é sempre passivo? – pergunto, sem cerimônias. Enrolação e pudor não existem entre bons amigos.
─ É isso o que eu estou dizendo. Sempre passivo. – Ele assente. ─ Mas como acabo de ficar com você, quero ver se gosto de estar no comando da situação. Você me deixaria tentar? Apesar de tudo, eu não levo jeito. – Ele abre um sorriso, corando. ─ É um experimento. O que você acha?
─ Acho que… Depende… – sorrio um pouco.
─ Você é muito feminina. É isso o que me chama a atenção. Eu nunca transei com uma mulher. – Confessa o meu amigo ─ Se quero provar algo novo, não teria sentido transar com alguém masculino, é o que eu sempre fiz a vida inteira.
─ Você está falando de sexo… transar… – eu rio. ─ E se eu não quiser? – abro um sorriso ladeado, e brincalhão.
─ Ah, você quer. – Ele sorri, mostrando um pouco os dentes. Eram tão brancos e imaculados como os do Armin. ─ Não quer? – seu timbre fica mais sensual e ele inclina o pescoço levemente na minha direção, flertando.
─ A Violeta vai querer me matar. – Solto uma risada leve. Essa garota um dia me contou ser apaixonada pelo André.
─ Ué, eu tenho liberdade de escolha, afinal, não? Transo com quem eu quiser.
─ E se você começar a gostar de mulher? – retomo o assunto, com um sorriso divertido.
─ Hahaha. Bom, então serei bissexual, suponho. – Ele ri. ─ Enfim… De todos modos não acho que eu deixe de ser gay se dermos um bom amasso.
─ Ah, é? Eu tenho meus encantos. – Brinco, rindo.
─ Hm… Com certeza. – André murmura, e ambos ficamos em silêncio alguns segundos, em choque com sua declaração.
Ele, gay, havia afirmado que eu tinha meus encantos.
─ Ainda assim, você ficaria decepcionada comigo. – Ele suspira de leve. ─ Sou como uma virgem, não? Nada parecido com o Casandro, Luíz, ou com o meu próprio irmão. E nem de perto com as coisas que você me contou que viveu com eles. ─ ele abre um sorriso pequeno.
─ Like a virgin, touched for the very first time. – André começa a rir de mim. Sigo cantando Madona, vendo meu amigo gargalhando.
O abraço enquanto rimos, bêbados.
Se divertir com outra pessoa que empatiza conosco é um dos melhores presentes da vida.
─ Deixa eu te perguntar algo bem pessoal, André. – Neste momento, roubo um copo de plástico que andava abandonado por ali, seguramente de alguém que deu PT. André ri levemente. Dou algumas goladas e lhe olho nos olhos. ─ Quando você transa com os bofes… Você é submisso? Tipo… eles mandam em você e essas coisas?
André gargalha vermelho.
─ Sim, costuma ser a minha vibe.
Dou um risinho.
─ E se eu falasse assim para você: “hoje eu vou jogar bem na sua cara”. – Digo sensualmente, e devagar.
André dá outra risada extensa e tampa o rosto com a mão, envergonhado.
─ O que você vai jogar na minha cara? – ele segue rindo.
─ Ué… O que você acha? A minha periquita. – Digo com uma voz cômica. André ri. Coloco um timbre mais sensual na próxima frase. ─ Para você lamber. – Sussurro.
─ Se você falar sério comigo, talvez funcione. – Ele ergue uma sobrancelha e me encara com malícia.
─ Estou ficando com uma vontade enorme de ser mandona com você.
Meu amigo dá uma risada suave, e logo me encara, mais sério e corado.
─ Nós dois estamos ativos hoje. – Ele murmura, e lambe seu lábio inferior.
Fico vidrada no movimento sensual da sua língua. Ele sorri em seguida. E se dá conta do efeito que causou em mim.
─ Ah! (…) Procurei vocês por todos os lados! – Armin suspira, olhando nós dois. Passaram alguns segundos até ele se dar conta da atmosfera do ambiente. ─ O que vocês estão fazendo? – ele pergunta com malícia, olha nós dois, e dá um risinho sarcástico em seguida. Parece que estávamos próximos demais e nem tínhamos percebido.
Olho o meu relógio discretamente. São cinco da manhã, o show havia acabado.
─ Isso acabou já. Planos? – Armin nos olha após informar o que eu já havia intuído.
─ Jorge? – pergunta André.
─ Não vi ele em nenhum lugar. – Armin responde. O rosto dele tem uma marca de batom vermelho. Decido não dizer nada. Pode significar que ele encontrou uma amiga e ela lhe deu muitos beijos. Ou que ele esteve ficando com alguém.
─ Aff… – André suspira e coloca uma expressão meio triste. ─ Ele estava por aí faz nada…
─ Você quer procurá-lo? – pergunto, preocupada.
─ Não. Deixa… Ele sempre faz isso. – André suspira. ─ Sempre some.
─ Sério? Se eu fosse um garoto e você fosse o meu namorado, eu juro que não cheiraria outras flores. – Declaro para André, tentando animá-lo. E é pura verdade. O meu amigo é o gay mais lindo da noite e Jorge não deu muita atenção.
André sorri com carinho após o meu elogio e aperta o meu braço algumas vezes.
─ Cof… cof… Estou aqui. – diz Armin. ─ Sério… Vocês… Vocês se beijaram? – Armin abre um sorriso ladeado, cômico, e secretamente um pouco ciumento.
─ Como você sabe? – André ergue as duas sobrancelhas, surpreso.
─ Somos gêmeos! – exclama Armin.
Eu e André ficamos em choque com o sexto sentido que traz isto de ter nascido no mesmo dia que outra pessoa. Armin nos observa por alguns segundos, divertidíssimo.
─ Ah! É zoeira, caralho! Lynn, seu rosto está cheio de purpurina. – Ele explica.
Toco minha bochecha, vendo que a purpurina azul que o André tinha no rosto dele havia se pregado no meu.
Os três gargalhamos.
Não sei se com cumplicidade. Mais bem eu e André de nervosismo, e Armin de falsidade.
─ Você roubou meu crush, André. – Ele recrimina, ainda com um tom divertido.
─ Eu? – diz André. ─ Foi ela que pulou em mim. – Neste momento olho André, ofendida, e toco meu peito enquanto entreabro a boca. Eu ia dizer algo, mas Armin me interrompe.
─ Baby? – o moreno me olha momentaneamente. Todo o teatro estava ficando muito cômico. Sua vista volta para André, como se eles estivessem brigando, mas era encenação. ─ Agora nós vamos resolver isso na paulada. – Ele dá um soco na palma da sua mão aberta.
─ Ei, ei… Calma! Nós podemos resolver isso com diálogo! – André ri, levantando as mãos.
─ Diálogo? Coé! – Armin disse intimidante, ainda brincando, levando o peitoral uma vez para frente, na direção do irmão.
─ Nós podemos dividi-la. – André ri.
Armin para alguns segundos.
─ Hm… Hm… – Armin, teatreiro, começa a se acalmar e olha André. Seu timbre fica sério e analítico. ─ Interessante proposta, Senhor.
─ Ei! E onde eu fico nessa história toda? – entro na conversa. Eu era a “coisa” cujo destino estava sendo discutido.
─ Você não opina, mercadoria. – diz Armin, com um tom divertido.
─ Claro que eu opino! – rebato, cruzando os braços, indignada.
─ Tá bom, tá bom… – Armin vai para o lado de André, contra a parede do cenário. Ele cruza seus braços, apoia um pé nela e ergue o seu queixo, me olhando com um olhar superior, e muito malicioso. – Diz aí, fruta proibida. O que você acha?
Rio levemente do nome que ele me deu. “Fruta proibida”. O objeto de desejo de todos.
– Nós somos o Ying-Yang. – Ele diz, com um timbre rouco e grave. – A energia masculina e a feminina da mesma pessoa. – André cruza os braços como o Armin e faz um leve biquinho com os lábios, sensual. Ele também estava se divertindo com a palhaçada. Ambos me olhavam de um jeito sedutor, no entanto.
Onde é que a linha da excitação sobrepassa momentos como este, teoricamente apenas divertidos?
– E aí? – pergunta Armin, piscando um dos olhos, com um timbre rouco, extremamente sensual. – Let’s go, lassy?
Sotaque escocês.
Começo a rir divertidamente. Mas os dois nessa parede, como se fosse uma vitrine de homens gostosos, chamava muito a minha atenção.
– Para, Armin… – sigo rindo.
– Por quê? Você está doente? Estou te propondo um beijo com gêmeos sarados. Qualquer garota solteira e heterossexual, com a saúde mental plena, toparia. E você rejeita?
Que lábia a dele!
– Cara… isso é muita safadeza! – digo meio preocupada, e olho ao redor. Ninguém está prestando atenção na gente. Tem galera por aí vomitando, outros indo embora simplesmente.
– Sim, Lassy. Isso é bem safado. – Ele diz extasiado. – Bem do jeito que você gosta, não é? – Armando morde o canto dos seus lábios e me olha cheio de tesão.
Nós vamos nos lembrar disso amanhã? Provavelmente não. Estávamos aqui para nos divertir? Obviamente sim.
Mas o que Armin ganhava com isso? Quero dizer, para mim é maravilhoso realizar a fantasia de beijar irmãos gêmeos. Para um rapaz também seria maravilhoso beijar irmãs gêmeas. Mas, Armin era um dos gêmeos. O que ele sente com isso? A satisfação de me excitar?
– Eu gosto… – sussurro, ladeando um sorriso e me sentindo vermelha. – Mas tenho uma fantasia ainda pior, Armin.
– Qual? – eles perguntam em uníssono.
Gêmeos.
Abro um sorriso divertido.
– Me dá vergonha confessar. – Começo a rir e tampo meu rosto.
– Ah, Lynn… Pode falar. Estou receptivo. – Corado, André pisca um olho e segura a minha mão. Ele me puxa lentamente para perto, e fico próxima dos dois.
– Isso aí. Para de fazer cu doce, lassy… eu já sei que você não é nenhuma santinha. – Ele dá um risinho malicioso.
Seguro os dois pelos braços, apertando meus dedos levemente em suas peles, e fico na ponta dos pés, para alcançar as orelhas de ambos.
– Queria ver vocês se beijando. – Sussurro, baixinho.
Tão baixo como se isso fosse apagar meu desejo da memória deles, se eles rejeitassem.
Ambos se olharam nos olhos, com certo nojo misturado no sorriso burlesco que expunham, que significava que, apesar de ser uma proposta absurda, eles estavam ponderando.
– Depois você realiza uma fantasia minha? – pergunta Armin, ladeando-se para me olhar.
– Seria justo. – Murmuro, sem saber o que me espera.
– E aí, André? – ele olha o irmão, ainda com o sorriso de surpresa preso no rosto.
– Eu topo. – André ri. – E em troca quero entender por que isso te excita. – Ele ergue uma sobrancelha, maliciosamente.
– Como você quer que seja? – Armin me pergunta, sensualmente. – Quem é o passivo? – ele ri.
– Você! – digo, gargalhando. Ambos me olham com sorrisos cômicos.
– Você vai pagar por isso, baby. – Ele adverte, meio tímido.
Abro um sorriso divertido e olho para baixo, pensando alguns segundos. Certo. Já que eles iam mesmo fazer isso, acho que eu deveria ser honesta e aproveitar o momento para realmente presenciar algo que me deixaria excitada de verdade.
– Brincadeira, Armin. Você é o ativo. – Digo, por tanto. André fica super corado.
– Só um beijo rápido. – diz o de cabelos azuis.
– Não… Se esforcem um pouco, poxa. – Dou uma risada leve, me sentindo uma cafetina. No plano astral tem chifres de diabo crescendo na minha cabeça nesse momento.
Armin suspira levemente, olhando para mim. Ele pega o irmão pelos pulsos, um em cada mão.
– Assim, safada? Isso te deixa quente, é? – ele pergunta, roucamente.
Assinto de leve, corando, e mordo meus lábios, olhando André meio amolecido, e tímido também. O rosto dos dois são lindos, em dobro, duplicados.
Um na frente do outro.
Minha barriga esfria e fico um pouco séria. Embriagada pela excitação do momento, sussurro para André, ficando extremamente sarcástica:
– Capricha, André… Eu vou te pontuar de 0 a 10.
É uma forma de submetê-lo, se ele tem os mesmos gostos sexuais que eu, desviados, isso com certeza lhe excita. Em D/S, “ganhar” ou “perder” a aprovação do dominante é um dos jogos leves mais frequentes.
André dá um risinho suave e fecha os olhos. – De todos modos… rápido. – Ele insiste, se rebelando.
– Ts… – zombo, cruzando meus braços.
Armin o puxa para mais perto e toca o rosto macio de André. Ele abre os lábios do irmão com sua mão, seu polegar roça levemente na prega da boca dele. É muito erótico.
Suspiro de leve.
Vejo ambos fecharem os olhos e neste momento algo se remove entre minhas pernas. Olho os corpos definidos dos dois, bem perto, ainda que não se rocem. Como eles não me notam, mordo os lábios.
Armin começa a colocar a sua língua aos poucos na boca dele, eu vejo o movimento da passagem dela até os lábios do André, vermelha e úmida. Ambas se tocam.
– Se preguem mais… – meu sussurro é visivelmente excitado, pronunciado para evitar que eles se separem, pois estavam a ponto.
André entreabre os olhos para me olhar. O rosto dele está muito sensual, sendo beijado. Ele segura o pulso do irmão, fecha os olhos e avança um pouco contra o rosto do moreno enquanto os peitorais de ambos se tocam, assim como suas pernas, e calças, atendendo meu comando.
Vejo Armin entreabrindo os olhos para me olhar dessa vez. Eles começam a brilhar de um jeito sacana. Armando os fecha de novo e, para me provocar, segura a cabeça do irmão, apertando seu cabelo na zona da raiz. Logo se gira um pouco, levemente, e força o garoto contra a parede, num movimento sutil e sensual, ao mesmo tempo em que afunda a língua dentro de sua boca, sem nada de paixão no entanto.
De repente eles se empurram e começam a cuspir de um jeito zombeteiro, ambos dizendo “eca”, “aff”, “que nojo”! Buah, buah!
Ambos me olham. O moreno com uma cara totalmente indecifrável.
– Nota 7/10. – digo, zombada.
Amando abre um sorriso sarcástico.
– Hm… Baby… – ele sussurra. – Você se achando a Dominatrix até que é bem sexy. – Ele lambe seu lábio inferior, e se aproxima de mim perigosamente. Ele me encara desde cima, me intimidando. – Agora é a sua vez. – Ele segura meus braços, um em cada mão, e murmura arrastado. Fico levemente vermelha.
André dá uma risada alta.
– Vai lá. Acaba com ela. – Ri o de cabelos azuis.
Ficamos nos encarando olhos com olhos. O último que André viu foi o sorriso sacana do Armando. Já eu estava vendo este sorriso se desmanchando enquanto ele agarra um pulso meu em cada mão, agora com um excesso de força, com raiva, com tristeza, se contendo.
Seus olhos estão ficando marejados, seu olhar está dando espaço para um brilho de nostalgia, mágoa e distância emocional. Estou ficando incômoda.
– Só estou brincando, Lynn. – ele volta a abrir um sorriso sarcástico. — Eu percebi que estava atrapalhando algo quando eu cheguei. – Armando está sério, cortante e intenso. Ele me olha, assentindo fraco, e logo se gira. – Que remédio, né? – diz o moreno, olhando pro seu gêmeo. ─ Bom, galerinha. Vou nessa!
Ele me solta e coloca as mãos dentro dos bolsos e passa apressado pelo meu lado, indo embora com passos gordos e decididos.
– Ele está chateado?! – pergunto a meu amigo com um tom desesperado.
André dá de ombros, ainda em choque.
Como pode ser isso? Ele estava aqui conosco brincando agora a pouco, fingindo que não se importa, como se tudo estivesse bem.
Franzo as sobrancelhas, sentindo-me confusa e angustiada.
O que eu deveria fazer agora?
Ir atrás do Armando. (Ele parece realmente chateado)
Deixar ele esfriar a cabeça. (É melhor a poeira abaixar)